Em complemento à publicação intitulada “Os iconoclastas”, de
06 de março [aqui], segue a questão 25, art. 3, da III parte da Suma Teológica. Nesta
questão Santo Tomás trata da adoração da imagem de Cristo.
Os negritos e o que se contém entre colchetes são acréscimos nossos. Quanto à tradução, utilizamos a versão das Edições Loyola.
* Para os que desconhecem a quaestio disputata, a forma com que Santo Tomás escreve a Suma,
segue brevemente a sua estrutura:
1º- propõe-se a questão que será disputada;
2º- dá-se um parecer geral;
3º- descrevem-se da melhor forma possível as objeções;
4º- opõe-se um argumento geral contra as objeções (sed contra), geralmente argumento de
autoridade;
5º- expõe-se a resposta à questão;
6º- respondem-se as objeções.
QUESTÃO 25
ARTIGO 3
Se se[1] deve
adorar a imagem de Cristo com adoração de latria.
QUANTO AO TERCEIRO, ASSIM
SE PROCEDE: parece que a imagem de Cristo não deve ser adorada com adoração de
latria.
1. Com efeito, no livro do Êxodo [20, 4] está escrito: "Não
farás estátuas ou nenhuma imagem". Ora, não se deve praticar adoração
alguma contra o preceito divino. Logo, a imagem de Cristo não deve ser adorada
com adoração de latria.
2. ALÉM disso, não devemos ter nada em comum com as obras
dos pagãos, como nos diz o Apóstolo na Carta aos Efésios [5, 11]. Ora, o que é
recriminado principalmente aos pagãos é que "trocaram a glória do Deus
incorruptível pela imagem de um homem corruptível" como se diz na Carta
aos Romanos [1, 23]. Logo, a imagem de Cristo não deve ser adorada com adoração
de latria.
3. ADEMAIS, a adoração de latria é devida a Cristo em razão
da divindade, não em razão da humanidade. Ora, à imagem de sua divindade, impressa
na alma racional, não é devida a adoração de latria. Logo, muito menos à imagem
corporal, que representa a humanidade de Cristo.
4. ADEMAIS, nada deve ser feito no culto divino que não
tenha sido instituído por Deus. Por isso o Apóstolo na primeira Carta aos
Coríntios [11, 23], quando transmite o ensinamento sobre o sacrifício da Igreja,
diz: "Recebi do Senhor o que vos transmiti". Ora, não se encontra na
Escritura nenhum ensinamento sobre a adoração das imagens. Logo, a imagem de
Cristo não deve ser adorada com adoração de latria.
EM SENTIDO CONTRÁRIO, afirma Damasceno, citando Basílio:
"A honra prestada à imagem chega ao protótipo", a saber, ao modelo.
Ora, o modelo como tal que é Cristo, deve ser adorado com adoração de latria.
Logo, também a sua imagem.
RESPONDO. Como o Filósofo diz no livro da Memória e da Reminiscência, há um duplo
movimento da alma para a imagem: um, para a imagem mesma, enquanto é uma coisa;
outro, para a imagem enquanto é imagem de outro. E entre os dois movimentos há
esta diferença: o primeiro, pelo qual alguém se move para a imagem como uma
coisa, é diferente do que se move para a coisa; o segundo movimento que é para
a imagem enquanto imagem é um e o mesmo com o que se move para a coisa. Assim,
pois, deve-se dizer que não se presta
veneração alguma à imagem de Cristo enquanto é uma coisa, por exemplo, uma
madeira esculpida ou pintada; porque a veneração só é devida à criatura
racional. Só é possível, pois, manifestar-lhe veneração enquanto imagem. Daí se
conclui que à imagem de Cristo se presta a mesma veneração que ao próprio Cristo.
Dado, portanto, que Cristo é adorado com adoração de latria, segue-se que sua
imagem seja adorada também com adoração de latria.
QUANTO AO 1°, portanto, deve-se dizer que no preceito mencionado não se proíbe fazer
qualquer tipo de escultura ou de imagem, mas de fazê-las para adorá-las. Por isso acrescenta o livro do Êxodo
[v. 5]: "Não as adorarás nem lhes
prestarás culto". Porque, como foi dito, o movimento para a imagem e
para a coisa é o mesmo, da mesma forma que se proíbe a adoração, se proíbe a
adoração da coisa da qual é imagem. Entende-se,
assim, que a adoração proibida é a das imagens que faziam os pagãos para adorar
os seus deuses, isto é, os demônios; daí
a advertência que precede [v. 3]: "Não terás deuses estrangeiros diante de mim". Pois o
verdadeiro Deus, por ser incorpóreo, não podia ser plasmado em nenhuma imagem
corporal; por isso diz Damasceno: "É o cúmulo dá estultície e da impiedade
dar figura ao que é divino". Mas,
no Novo Testamento, Deus se fez homem; por isso pode ser adorado em sua imagem
corporal.
QUANTO AO 2°, deve-se dizer que o Apóstolo proíbe comungar
nas obras estéreis dos pagãos, não em suas obras úteis. Ora, a adoração das
imagens está entre as obras estéreis por dois motivos. Primeiramente, porque
alguns adoravam as imagens mesmas como coisas reais, crendo que nelas havia algo
de divino, por causa das respostas que davam os demônios por meio delas, e por
outros efeitos maravilhosos semelhantes. Em segundo lugar, por causa das coisas
das quais eram imagens: construíam imagens de certas criaturas às quais veneravam
com veneração de latria. Nós, porém, adoramos com adoração de Iatria a imagem
de Cristo, verdadeiro Deus, não pela imagem em si, mas por causa da realidade
que ela representa, como foi dito.
QUANTO AO 3º, deve-se dizer que à criatura racional como tal
é devida reverência. Por isso, se lhe fosse tributada adoração de latria por
ser imagem de Deus, poderia haver uma ocasião de erro, pois o movimento de quem
adora poderia deter-se no homem, enquanto é uma coisa, e não terminar em Deus,
do qual é imagem. Não há lugar para este erro quando se trata de uma imagem esculpida
ou pintada numa matéria insensível.

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