sexta-feira, 18 de março de 2022

SOBRE A ADORAÇÃO DA IMAGEM DE CRISTO

 


Em complemento à publicação intitulada “Os iconoclastas”, de 06 de março [aqui], segue a questão 25, art. 3, da III parte da Suma Teológica. Nesta questão Santo Tomás trata da adoração da imagem de Cristo.

Os negritos e o que se contém entre colchetes são acréscimos nossos. Quanto à tradução, utilizamos a versão das Edições Loyola.

 

* Para os que desconhecem a quaestio disputata, a forma com que Santo Tomás escreve a Suma, segue brevemente a sua estrutura:

1º- propõe-se a questão que será disputada;

2º- dá-se um parecer geral;

3º- descrevem-se da melhor forma possível as objeções;

4º- opõe-se um argumento geral contra as objeções (sed contra), geralmente argumento de autoridade;

5º- expõe-se a resposta à questão;

6º- respondem-se as objeções.

 

 

QUESTÃO 25

 

ARTIGO 3

 

Se se[1] deve adorar a imagem de Cristo com adoração de latria.

 

QUANTO AO TERCEIRO, ASSIM SE PROCEDE: parece que a imagem de Cristo não deve ser adorada com adoração de latria.

 

1. Com efeito, no livro do Êxodo [20, 4] está escrito: "Não farás estátuas ou nenhuma imagem". Ora, não se deve praticar adoração alguma contra o preceito divino. Logo, a imagem de Cristo não deve ser adorada com adoração de latria.

2. ALÉM disso, não devemos ter nada em comum com as obras dos pagãos, como nos diz o Apóstolo na Carta aos Efésios [5, 11]. Ora, o que é recriminado principalmente aos pagãos é que "trocaram a glória do Deus incorruptível pela imagem de um homem corruptível" como se diz na Carta aos Romanos [1, 23]. Logo, a imagem de Cristo não deve ser adorada com adoração de latria.

3. ADEMAIS, a adoração de latria é devida a Cristo em razão da divindade, não em razão da humanidade. Ora, à imagem de sua divindade, impressa na alma racional, não é devida a adoração de latria. Logo, muito menos à imagem corporal, que representa a humanidade de Cristo.

4. ADEMAIS, nada deve ser feito no culto divino que não tenha sido instituído por Deus. Por isso o Apóstolo na primeira Carta aos Coríntios [11, 23], quando transmite o ensinamento sobre o sacrifício da Igreja, diz: "Recebi do Senhor o que vos transmiti". Ora, não se encontra na Escritura nenhum ensinamento sobre a adoração das imagens. Logo, a imagem de Cristo não deve ser adorada com adoração de latria.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, afirma Damasceno, citando Basílio: "A honra prestada à imagem chega ao protótipo", a saber, ao modelo. Ora, o modelo como tal que é Cristo, deve ser adorado com adoração de latria. Logo, também a sua imagem.

RESPONDO. Como o Filósofo diz no livro da Memória e da Reminiscência, há um duplo movimento da alma para a imagem: um, para a imagem mesma, enquanto é uma coisa; outro, para a imagem enquanto é imagem de outro. E entre os dois movimentos há esta diferença: o primeiro, pelo qual alguém se move para a imagem como uma coisa, é diferente do que se move para a coisa; o segundo movimento que é para a imagem enquanto imagem é um e o mesmo com o que se move para a coisa. Assim, pois, deve-se dizer que não se presta veneração alguma à imagem de Cristo enquanto é uma coisa, por exemplo, uma madeira esculpida ou pintada; porque a veneração só é devida à criatura racional. Só é possível, pois, manifestar-lhe veneração enquanto imagem. Daí se conclui que à imagem de Cristo se presta a mesma veneração que ao próprio Cristo. Dado, portanto, que Cristo é adorado com adoração de latria, segue-se que sua imagem seja adorada também com adoração de latria.

QUANTO AO 1°, portanto, deve-se dizer que no preceito mencionado não se proíbe fazer qualquer tipo de escultura ou de imagem, mas de fazê-las para adorá-las. Por isso acrescenta o livro do Êxodo [v. 5]: "Não as adorarás nem lhes prestarás culto". Porque, como foi dito, o movimento para a imagem e para a coisa é o mesmo, da mesma forma que se proíbe a adoração, se proíbe a adoração da coisa da qual é imagem. Entende-se, assim, que a adoração proibida é a das imagens que faziam os pagãos para adorar os seus deuses, isto é, os demônios; daí a advertência que precede [v. 3]: "Não terás deuses estrangeiros diante de mim". Pois o verdadeiro Deus, por ser incorpóreo, não podia ser plasmado em nenhuma imagem corporal; por isso diz Damasceno: "É o cúmulo dá estultície e da impiedade dar figura ao que é divino". Mas, no Novo Testamento, Deus se fez homem; por isso pode ser adorado em sua imagem corporal.

QUANTO AO 2°, deve-se dizer que o Apóstolo proíbe comungar nas obras estéreis dos pagãos, não em suas obras úteis. Ora, a adoração das imagens está entre as obras estéreis por dois motivos. Primeiramente, porque alguns adoravam as imagens mesmas como coisas reais, crendo que nelas havia algo de divino, por causa das respostas que davam os demônios por meio delas, e por outros efeitos maravilhosos semelhantes. Em segundo lugar, por causa das coisas das quais eram imagens: construíam imagens de certas criaturas às quais veneravam com veneração de latria. Nós, porém, adoramos com adoração de Iatria a imagem de Cristo, verdadeiro Deus, não pela imagem em si, mas por causa da realidade que ela representa, como foi dito.

QUANTO AO 3º, deve-se dizer que à criatura racional como tal é devida reverência. Por isso, se lhe fosse tributada adoração de latria por ser imagem de Deus, poderia haver uma ocasião de erro, pois o movimento de quem adora poderia deter-se no homem, enquanto é uma coisa, e não terminar em Deus, do qual é imagem. Não há lugar para este erro quando se trata de uma imagem esculpida ou pintada numa matéria insensível.

QUANTO AO 4°, deve-se dizer que os Apóstolos, por um impulso interior do Espírito Santo, transmitiram às Igrejas certas coisas a serem observadas que não deixaram em seus escritos, mas que a sucessão dos fiéis estabeleceu como observância da lgreja. Por isso o mesmo Apóstolo diz na segunda Carta aos Tessalonicenses [2, 15]: “Ficai firmes e guardai as tradições que aprendestes, quer de palavra, a saber, por tradição oral, quer por carta, a saber, por tradição escrita”. E entre estas tradições está a adoração das imagens de Cristo. Eis por que se conta que São Lucas pintou uma imagem de Cristo que se conserva em Roma.



[1] Alteramos o título para ficar mais fiel ao latim.

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