segunda-feira, 13 de junho de 2022

RESUMO DA VIDA DE SANTO ANTÔNIO



Obs.: Este resumo da vida de Santo Antônio foi extraído do Manual de Santo Antônio, 4º edição, Editora Vozes, com reimprimatur por comissão especial do Exmo. e Revmo. Sr. Bispo de Niterói, D. José Pereira Alves, em 05/04/1940. As imagens, no entanto, são acréscimos nossos.



NASCIMENTO E INFÂNCIA DE SANTO ANTÔNIO DE PÁDUA

Ao contrário do que poderia parecer, pelo nome que se dá a Santo Antônio, sua pátria é Lisboa, capital de Portugal, que forma, com a Espanha, a península ibérica. Pádua, cidade da Itália, foi o lugar da sua morte; em Pádua se conserva a mais preciosa relíquia que se venera do corpo de Santo Antônio, que é sua língua bendita, e em Pádua se encontra a maior basílica do mundo, em honra a Santo Antônio.

Língua incorrupta de Santo Antônio.


Nasceu no ano de 1195, supondo-se que em 15 de agosto, recebendo o batismo nesse mesmo dia em que a Igreja celebra a gloriosa assunção da Santíssima Virgem Maria, e numa igreja dedicada a Nossa Senhora. Seus pais, ricos e piedosos, puseram-lhe o nome de Fernando.

Basílica de Santo Antônio, em Pádua.

Dotado de graças celestiais, notou-se desde a infância sua piedosa inclinação e se atribuem, mesmo em sua tenra idade, dois fatos edificantes e admiráveis.

Afirma-se que aos cinco anos fora visto prostrado diante da imagem da Santíssima Virgem Maria, fazendo voto de perpétua castidade. Pouco tempo depois, e na ocasião em que o santo se ocupava com um devoto exercício, apareceu-lhe o demônio, e o menino Fernando, ao invés de intimidar-se, fez com fervor o sinal da cruz, afugentando-o; logo depois, gravou a mesma cruz sobre uma pedra, que ainda hoje se conserva.

Sinal da cruz feito pelo dedo de Santo Antônio. Escada da Torre, Sé Catedral, Lisboa. Foto de Leonardo Alvim.

Poucos dados existem de sua meninice e juventude: porém os que se conhecem são suficientes para indicar a futura santidade que alcançaria com o correr do tempo e graças do céu.


SANTO ANTÔNIO ABANDONA O MUNDO

Era Santo Antônio jovem de maneiras tratáveis, feições delicadas, acompanhado de um ar de simpatia que cativava a todos que com ele tratavam. Apesar de ser um mancebo de elevada posição e de um futuro promissor, tudo abandonou, entregando-se ao serviço de Deus.

Fernando contava apenas nove anos, quando se apresentou ao padre superior do mosteiro de São Vicente, pedindo para seguir a vida religiosa. Por serem fartamente conhecidas suas virtudes, foi admitido sem demora, recebendo a branca túnica dos cônegos regulares de Santo Agostinho, preocupando-se, em seguida, unicamente do seu aproveitamento espiritual. Passados dois anos, vendo que próximo à sua família não se podia entregar ao absoluto retiro que tanto ansiava, solicitou e teve a permissão de passar para o mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, da mesma ordem, onde progrediu tanto nos estudos, que, tendo apenas chegado à idade determinada, em fins de 1219, obrigaram-no a ordenar-se sacerdote.

Referem as crônicas antigas que, durante sua estadia em Coimbra, tiveram lugar os fatos seguintes: Um dia em que o santo se achava do lado de fora da igreja, ouviu o sinal da elevação e prostrou-se a orar; no mesmo instante, abriram-se as paredes e o santo viu e adorou a hóstia nas mãos do sacerdote. Noutra ocasião, quando se celebrava a Santa Missa, viu entrar na glória dos céus, sem passar pelo purgatório, a alma de um religioso franciscano.


SANTO ANTÔNIO ENTRA NA ORDEM DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS

Progredindo rapidamente em suas virtudes, Santo Antônio ansiava ardentemente por abandonar-se às mãos do Senhor.

Em fins de 1219, foram hospedados no mosteiro de Santa Cruz cinco religiosos menores, que, enviados pelo seráfico padre São Francisco de Assis, se dirigiam ao Marrocos para evangelizar os infiéis. Santo Antônio ficou admirado com a humildade, o indiferentismo pelo mundo, a confiança inabalável na divina Providência, em suma, o gênero de vida que aqueles missionários levavam.

Pouco depois, em começo de 1220, soube-se, em Coimbra, que aqueles missionários haviam recebido a palma do martírio.

O jovem coração do santo comoveu-se profundamente; o zelo da glória de Deus e o desejo de sofrer tormentos por Jesus Cristo aumentaram em seu peito; e quando, mais tarde, as relíquias daqueles missionários chegaram ao mosteiro, Antônio não se pôde conter: ouviu a voz do céu que o chamava para outro caminho, e decidiu aproveitar a ocasião de formular seu pedido.

Obtendo a aquiescência de ambos os superiores, de que dependia, logo substituiu a branca túnica de cônego regular de Santo Agostinho pelo áspero burel de São Francisco de Assis.

Em abril de 1220, entrou para o convento de Olivares, dedicado a Santo Antônio, abade, em honra do qual recebeu o nome.


SANTO ANTÔNIO MISSIONÁRIO

Ao pedir para entrar para a ordem seráfica, Santo Antônio, cujo coração ardia pela salvação das almas remidas pelo sangue de Nosso Senhor, havia feito o pedido de que fosse mandado, assim que houvesse oportunidade, a um país de infiéis, onde pudesse pregar o Evangelho e obter a palma do martírio, caso fosse do agrado de Deus.

A terminação de seus estudos facilitou o cumprimento de seu desejo, e Santo Antônio, depois de haver feito seus votos, transcorrido meio ano de noviciado, dirigiu-se ao Marrocos, acompanhado de outro religioso, irmão leigo.

Partida de Santo Antônio para o Marrocos. Painel de Azulejos, Francisco Jorge da Costa (1780-1796), igreja do Vale de Santo Antônio. Foto de Marc Gulbenkian.

A necessidade absoluta de que o noviciado durasse um ano inteiro só se verificou em fins de 1220, pelo que a ordem citada chegou a Portugal quando Santo Antônio já havia professado e partido para Marrocos.

Quem poderia imaginar o zelo devorador e o desejo ardente que inflamavam o peito do virtuosíssimo Santo Antônio, durante a viagem e ao chegar, felizmente, à terra que devia ser o campo de suas missões?

Outros, porém, foram os desígnios de Deus. Ao desembarcar, devido às privações da viagem e à mudança de clima, Santo Antônio foi acometido de febres malignas, que o prostraram de cama durante todo o inverno. Resignou-se com a sua situação, sofrendo com heroica paciência as dores agudas do seu mal, e, reconhecendo a vontade de Deus contrária aos seus desejos, resolveu voltar à pátria.


SANTO ANTÔNIO NA ITÁLIA

Apenas Santo Antônio se sentiu com forças para empreender a viagem de regresso, embarcou novamente com seu companheiro. Mas uma forte tempestade, que pôs em perigo o navio, por vários dias, obrigou-os a mudar de rota e, em vez de desembarcarem na Espanha, viram-se lançados nas costas da Sicília.

Ali, teria permanecido Santo Antônio, fazendo parte das comunidades franciscanas, já existentes, se um fato extraordinário, ou melhor, se uma inspiração do Senhor não mudasse os acontecimentos. Teve notícia de que em Assis se reunia o capítulo geral da ordem, e, movido pelo desejo de conhecer o seráfico fundador e ao mesmo tempo de pôr-se diretamente às suas ordens, dando conhecimento aos superiores do resultado de sua viagem, dirigiu-se a Assis.

Deste modo, assistiu à assembleia, uma das mais importantes da ordem, pois se havia reunido cinco mil religiosos.

A vocação seráfica tornou-se mais intensa no espírito de Santo Antônio, que se propôs imitar os heroicos exemplos de oração, de obediência, de indiferença pelo mundo e de penitência que admirara em tão grande número de religiosos, e, em especial, levando impressa a imagem de São Francisco, que lhe ficara profundamente gravada.

Painel de Azulejos, autor desconhecido, c. 1790. Museu de Lisboa. Foto de José Avelar.

Ao terminar o capítulo, Santo Antônio curvou-se em obediência ao padre provincial que, admirado da inocência e candura do jovem, admitiu-o satisfeito e lhe designou o eremitério de Monte Paulo para que celebrasse a Santa Missa para os religiosos ali em retiro.


SABEDORIA DE SANTO ANTÔNIO

Na solidão de Monte Paulo, Santo Antônio dedicava-se aos exercícios de penitência e oração, que deslumbravam a todos os religiosos; sua alma, abrasada de amor por Deus, alcançava, com jejuns e penitências, a palma do martírio que não lograra obter com a pregação entre os infiéis.

Deus nosso Senhor dispôs que logo se descobrissem os ricos tesouros de sabedoria, eloquência e zelo apostólico que ocultava o humilde Santo Antônio.

Em 1222, achavam-se reunidos alguns religiosos da ordem de São Domingos e vários frades menores. Um dentre eles deveria fazer uma prática, e desculpando-se por delicadeza diante dos demais, o padre superior, movido por impulso celestial, dirigiu-se a Santo Antônio e ordenou-lhe que falasse. Obedeceu o santo; e sua palavra, vacilante a princípio, tornou-se logo firme e clara, expressiva e inflamável.

Os assistentes, surpresos e como fora de si, não sabiam o que admirar: se a grandeza do gênio do santo ou a profundeza de sua humildade.

Logo se divulgou a fama da sabedoria do jovem sacerdote, que a todos edificara; até o próprio seráfico fundador, São Francisco, enviou-lhe uma carta, ordenando-lhe que ensinasse teologia a todos os religiosos. Dedicou-se com tal êxito ao novo magistério, que ficou conhecido por “Pai da ciência mística”, que a tradição conserva em sua honra.

Tal magistério exerceu Santo Antônio unicamente para os religiosos e dentro dos claustros, primeiramente em Bolonha, depois em Vercelli, Tolosa e outros lugares, deixando-o mais tarde, para dedicar-se à pregação.


SANTO ANTÔNIO, MARTELO DOS HEREGES

O lugar em que Santo Antônio começou seu magistério estava infestado de hereges; por isso, movido pelo seu fervoroso amor à causa de Deus e pelo zelo que mantinha pelas almas, dedicava-se a combater as falsas doutrinas e [a] instruir os fiéis.

Este apostolado valeu [para] afugentar os hereges e confirmar os verdadeiros cristãos, que o cognominaram: “Martelo dos hereges”. Não é de admirar, pois, que produzisse inúmeras conversões, porque à sua ciência e dialética, seu fervor e vida santa, unia o poder de fazer milagres; sendo para notar o seguinte: Um jovem, desejoso de possuir um livro de anotações do nosso santo, intitulado: “Comentários sobre os salmos”, não vacilou em roubá-lo. Ao saber disso, Santo Antônio começou a orar. No mesmo instante, o fugitivo foi detido em sua carreira por um espetro, que, com uma chama na mão, exclamou: “Em nome de Deus, restitui o que roubaste”. Assustado, o jovem voltou e devolveu o manuscrito roubado.

Este fato parece ser origem de invocar-se Santo Antônio como advogado das coisas perdidas.

Quando o santo pregava em Puy de França e se defrontava com um notário que era o escândalo do povo, cumprimentava-o sempre com profunda reverência.

Molestado, o notário uma vez pediu-lhe explicação e o santo lhe respondeu: “Pedi ao Senhor a graça de um martírio, que me foi negada; em troca, lhe afirmo que a mesma lhe está reservada”.

Caçoou o incrédulo da profecia, mas, passados alguns anos, esta se realizou.


MILAGRES DE SANTO ANTÔNIO

É impossível falar de Santo Antônio sem encarecer o seu dom estupendo dos milagres. As fases mais salientes de sua vida são assinaladas pelos mais célebres prodígios, cuja lembrança se nos apresenta durante os seus nove anos de apostolado.

Quando pregava em Arles, diante dos religiosos, apareceu-lhe o seráfico padre São Francisco, que ainda vivia, abençoando e enchendo de indizível consolo a todos os assistentes.

São Francisco aparece a Santo Antônio em Arles. Giotto di Bondone (c. 1266-1337)

Na abadia de Solemniaco vivia um excelente religioso beneditino, que assistia a Santo Antônio quando aí se hospedou. Rogou-lhe que lhe obtivesse a graça de vencer as violentas tentações carnais que o atormentavam constantemente. Santo Antônio entregou-lhe seu hábito e, ao vesti-lo, viu-se o religioso livre, para sempre, daquela pena espiritual.

O prodígio mais célebre teve lugar em Limoges. Ao começar um sermão, lembrou-se que devia cantar no coro e que não havia procurado quem o substituísse. Aflito por seu esquecimento, interrompe o sermão, fica imóvel algum tempo, com admiração dos fiéis, e, sem sair do lugar, aparece ao mesmo tempo entre seus irmãos, cumprindo sua obrigação [cf. aqui].

Por este tempo, deviam mudar-se os superiores de alguns conventos, que não podiam ficar no cargo mais de três anos. A Santo Antônio, entretanto, confiaram a fundação de uma casa na qual ficou e favoreceu com os milagres de seu apostolado.


SANTO ANTÔNIO RESSUSCITA UM MORTO

Quando mais ocupado se achava Santo Antônio em seu ministério apostólico, recebeu a noticia da morte do santo fundador da ordem e a celebração do capítulo geral em Assis, ao qual estava obrigado a assistir. Pôs-se a caminho, evangelizando os lugares por onde passava e operando extraordinários milagres. No capitulo, Santo Antônio foi eleito ministro provincial da Romagna, a mais importante província da ordem, porque a fama de sua ciência, de sua virtude e de seus prodígios, faziam-no venerado de todos, apesar de sua pouca idade. Sem demora, visitou os religiosos, detendo-se também em espalhar a palavra divina aos fiéis.

Indo a Pádua, pela primeira vez, ali teve noticia, por revelação divina, de que seu pai, que vivia em Lisboa, havia sido acusado do assassínio de um jovem. Antônio pôs-se em oração e logo viu-se trasladado a Lisboa. Apresentou-se diante dos juízes, reunidos para lavrar a sentença, e defendeu o acusado. Mas tais haviam sido os ardis dos inimigos que os juízes de modo algum se quiseram convencer. Então o santo pediu-lhes que o acompanhassem ao túmulo do assassinado, porque, à falta de provas mais convincentes, ele faria falar o morto. Somente a grande autoridade de um Santo Antônio alcançou que os juízes acedessem; e qual não foi o assombro dos mesmos quando a vítima, ressuscitada, afirmou não ser o acusado o criminoso!

Santo Antônio livrando o pai da forca. Óleo sobre madeira, autor desconhecido, séc. XVI. Museu de Lisboa.

Certamente obteve a absolvição do réu, ficando todos estupefatos por verem o santo desaparecer, ao mesmo tempo em que a vítima volvia ao sepulcro.


SANTO ANTÔNIO E O AVARENTO.
APARIÇÃO

O zelo ardoroso da glória de Deus não permitia a Santo Antônio descansar, de sorte que se impunha, de uma parte, viagens, trabalhos sem conta, pregações, apesar de sua saúde muito delicada; e, por outra parte, penitências, jejuns e macerações. Chegando a Assis, pregou diante do Papa Gregório IX, que, maravilhado de seu extraordinário saber teológico e de sua erudição nos livros santos, e surpreendido de sua virtude, o chamou: “Arca do testamento”.

Passando por Florença, pediram-lhe para fazer a oração fúnebre de um nobre cidadão. Aceitou o santo a incumbência, mas em meio do discurso parou: Deus lhe acabava de revelar que a alma do defunto, por castigo de suas injustiças e usuras, estava condenada. Continuando o sermão, disse: “Morreu este rico e foi sepultado no inferno! Ide e abra [a] caixa de seus tesouros e ali encontrareis seu coração”.

Atônitos e aterrados, os parentes do defunto correram a certificar-se do caso, e com seus próprios olhos viram o coração do avarento no meio de seu dinheiro. De modo tão veemente demonstrou Santo Antônio o horror daqueles que exploram a miséria dos pobres.

Vendo o demônio os frutos de benção que se colhiam dos esforços do santo missioná­rio, chegou a atentar contra sua vida, tratando de afogá-lo. Mas Santo Antônio invocou o doce nome da Santíssima Virgem Maria, entoando seu hino favorito: “O gloriosa Domina” e, no mesmo instante, apareceu-lhe a própria Imaculada Senhora, que o consolou, arrojando o demônio no inferno.


SANTO ANTÔNIO E O PÉ CORTADO

A aparição da Santíssima Virgem Maria, referida na página anterior, não foi a única de que gozou o grande apóstolo Santo Antônio. Já anteriormente, quando se achava em França, gozou da visão de Nossa Senhora. Estava convencido o santo do privilégio que Deus Nosso Senhor concedeu à Santíssima Virgem, fazendo-a subir ao céu em corpo e alma. Mas, no seu tempo, havia livros que defendiam o contrário; pesaroso, o santo recorreu à oração, e dignou-se a própria Rainha do céu em visitar e consolar o seu servo, convencendo-o de seu privilégio.

Daí por diante, foi Santo Antônio um defensor entusiasta da Assunção de Nossa Senhora.

Depois destas celestes visões que gozou o santo, seguiram-se mais notáveis e multiplicados prodígios. Destaca-se o seguinte: Um penitente se acusou a Santo Antônio de haver maltratado sua mãe, dando-lhe um pontapé. O santo, para fazer-lhe compreender a gravidade de sua falta, disse-lhe: “Esse pé, com que ultrajaste tua mãe, merece ser cortado”.

Foi tal o arrependimento do jovem, que, chegando a casa, tomou um facão e cortou o pé culpado. Aos gemidos do filho e aos gritos da mãe acudiu a vizinhança e a notícia do fato chegou até ao santo, que se dirigiu à casa do jovem, reconhecendo-o. Invocou a onipotência do Senhor e logo, tomando o pé cortado, juntou-o à perna. No mesmo instante o jovem se levantou curado, glorificando todos a Deus e a seu fiel servo, sto. Antônio.

Sebastiano Ricci (1659-1734), S. Antonio de Padova risana un giovane che si era amputato il piede



SANTO ANTÔNIO E O SS. SACRAMENTO

É impossível, em uma notícia tão breve, citar os muitos e estupendos milagres que operou Santo Antônio; mas não podemos deixar de mencionar os três seguintes que vêm a constituir uma trilogia especial, que desenham a característica do santo. São: o da Eucaristia, o da pregação aos peixes e a aparição do menino Jesus.

Um astuto e malvado herege, apesar das pregações de Santo Antônio, não acreditava na presença real de Jesus Cristo na hóstia consagrada. Comovido o santo, ante a impenitência do ímpio, propôs-lhe o seguinte: “Se tua mula adorar o Santíssimo Sacramento, acreditarás que Jesus está realmente na Sagrada hóstia?”

- “Sim, respondeu aquele, vou deixar a minha mula sem comer durante três dias, ao fim dos quais levá-la-ei à praça pública, onde, de um lado, porei comida e do outro colocar-te-ás com a hóstia; se o animal se prostrar diante do Senhor, desprezando o alimento, acreditarei”. No terceiro dia, uma grande multidão encheu a cidade; ordenou o santo uma procissão com o Santíssimo para chegar até à praça onde estava o herege com seus adeptos e a mula. No momento em que Santo Antônio, com o sagrado corpo na custódia, chegava ao centro da praça, apresentaram a comida à faminta mula que, em atitude reverente, não se moveu, até Santo Antônio se retirar entre as aclamações do público. Converteu-se o herege e muitos dos seus companheiros, enquanto os bons se confirmaram na fé e [na] veneração do Santíssimo Sacramento, bendizendo a santidade extraordinária do apóstolo.

Filippo Abbiati (1640-1715), S. Antonio di Padova ed il miracolo della mula, século XVII.

Com a fama de tais prodígios, cresceu o devoto afeto que o povo prodigalizava ao santo.


SANTO ANTÔNIO PREGA AOS PEIXES

Sempre têm sido os pecadores empedernidos em suas ideias e não raras vezes abusado do que há de mais sagrado e divino. Assim se viu no tempo de sto. Antônio, apesar de ser um apóstolo maravilhoso em suas obras e palavras, capaz de comover os penhascos; entretanto, muitos eram os que não se queriam converter, nem sequer ouvi-lo. À voz do santo, as casas ficavam abandonadas e o povo enchia a praça, pois as igrejas eram pequenas para contê-lo: ricos e pobres, sábios e ignorantes, magistrados e sacerdotes escutavam as palavras de vida do taumaturgo. Houve alguns que, ao se apresentar o santo, não se comoveram, pouco nem muito; antes, indiferentes, se contentavam em olhar o jovem religioso sem se decidirem a reunir-se aos que o ouviam. Orou Santo Antônio ao Senhor; e um dia, tomando uma atitude resoluta, disse em alta voz: “Pois que vós sois indignos de ouvir a palavra de Deus, vou pregar aos peixes”.

Excitada, a multidão curiosa seguiu o santo; a confusão e o arrependimento não tardaram, pois que se viu, ao começar o santo a falar, cobrir-se a praia de uma infinidade de peixes, colocando-se os maiores atrás, os pequenos adiante, tendo todos as cabeças fora da água e dirigidas ao missionário extraordinário, que exaltou os benefícios que o Senhor lhes concedera. Os animaizinhos, a seu modo, manifestavam sua conformidade e assentimento às palavras do original pregador e não se moveram enquanto Santo Antônio não o permitiu, depois de abençoá-los.

Paolo Veronese (1528-1588). Santo Antônio pregando aos peixes.


SANTO ANTÔNIO RECEBE A VISITA DE JESUS CRISTO

Certamente que, lendo os sucessos maravilhosos realizados com Santo Antônio, não se poderá deixar de encher-se de admiração e venerá-lo como um dos maiores santos da Igreja. Compreender-se-á como Nosso Senhor o tenha favorecido tão extraordinariamente, de ser o santo uma alma fidelíssima, um espírito elevado sobre as grandezas do mundo e cheio do céu, de amor divino que se traduzia em obras virtuosas e em atos heroicos de sacrifício, de humildade, de penitência!

Jesus Cristo havia escolhido Santo Antônio como amigo predileto. Se o santo de Pádua sentia-se estremecer de ternura à vista de uma desgraça, não era porque o espírito de Jesus o assistia continuamente?

Era tão compassivo e generoso o bendito taumaturgo que, ao ordenar com fé cega e intensíssima algum milagre, Jesus aceitava seu desejo e tudo se realizava como ele queria.

Não é de admirar que Jesus Cristo lhe aparecesse em forma humana. Ele, que se compraz na inocência, apresentou-se ao santo sob a forma de um menino encantador, descansou em seus braços, permitindo que lhe fizesse suaves carícias, e encostou seu rosto divino ao radiante rosto do santo. Colocou suas mãos onipotentes sobre o coração de Antônio, que reconheceu que se lhe penetravam mais amor e mais ternura pelos mortais.

Anton Raphael Mengs (1728-1779). Pintor neoclássico alemão.


MORTE DE SANTO ANTÔNIO

Em pouco tempo e pela maravilha das graças do Senhor, fielmente correspondidas, Santo Antônio elevara-se ao mais alto grau de perfeição, ardendo o seu coração em tal fogo de celeste caridade que lhe consumiu a vida material. Os trabalhos apostólicos e as macerações contínuas completaram a ruina do homem exterior; e Antônio, na idade de 36 anos, compreendeu que se aproximava a hora da morte. Nos últimos anos pregou em Pádua e a correspondência com as pessoas cativou o santo, merecendo que preferisse aquela cidade a outras, multiplicando ai os milagres.

Ao terminar a Quaresma de 1231, em Pádua, pediu licença aos superiores para retirar-se, e, obtendo-a, dirigiu-se para o retiro do Campo de São Pedro, onde continuou os exercícios de penitência; de orações e todas as virtudes.

Em 30 de maio abençoou a cidade de Pá­dua, anunciando sua imensa glória. Poucos dias depois, sentindo-se acometido por violenta enfermidade, pretenderam seus irmãos levá-lo para Pádua; mas, receando pela sua vida, não passaram do convento de Arcela. Recebendo o sacramento, entoou seu hino em honra de Nossa Senhora, e, notando-se-lhe o radiante olhar fixo num ponto, perguntou-lhe o enfermeiro o que estava vendo; respondeu-lhe sorrindo: “Vejo o meu Senhor!”

Meia hora depois expirava docemente. No mesmo instante, as crianças de Pádua, levadas por uma força sobrenatural, começaram a correr pela cidade, gritando: “O santo morreu!” sabendo assim as pessoas da cidade, por esse singular prodígio, a morte do santo.


SANTO ANTÔNIO ESCOLHE A TERÇA-FEIRA

Era verão, 13 de junho de 1231, dia em que morreu Santo Antônio; mas não puderam sepultar seu corpo porque de todos os lugares chegavam pessoas para venerar seus preciosos restos. Por fim, determinou-se a terça-feira, dia 17, para seus funerais e enterro. Os povos vizinhos haviam acudido em massa, não faltando nenhum enfermo nem necessitado, porque a fama dos milagres se espalhara de tal forma que a esperança de obter igual favor comovia intensamente.

Se os prodígios daqueles dias produziram natural alegria, inconcebível foi a que se verificou na terça-feira, porque toda a grande falange de necessitados, que se reuniu em torno do cadáver, se levantou paulatinamente, curada de seus males; todos que invocaram a Santo Antônio naquele dia foram socorridos e não ficou nem um enfermo desconsolado em todo o país.

Fácil é de supor que os funerais foram um glorioso triunfo, pois, quem poderia conter aquela ingente multidão de cegos, coxos, paralíticos, mancos, enfermos de todos os males, que acabava de obter tão repentinamente a saúde? Como gratidão destes fatos e porque a posteridade reconheceu no santo taumaturgo de Pádua uma inclinação mais favorável para conceder o benefício neste dia, e porque a tradição também diz que o santo mesmo se manifestou sobrenaturalmente em algumas ocasiões, é certo que lhe foi dedicada a terça-feira; e a Igreja aprovou e tem concedido indulgência plenária, com certas condições, aos que obsequiam a Santo Antônio em treze terças-feiras consecutivas. [Cf. trezena].


SANTO ANTÔNIO O MAIS FESTEJADO TAUMATURGO

A vida de Santo Antônio passou-se de modo milagroso, pois que milagre da destra do Eterno foi a heroica e quase incrível santidade que obteve; milagre, os frutos de bênçãos que alcançou no exercício de seu ministério, e milagres estupendos, ações incríveis, realizava de contínuo como se lhe fora familiar - o extraordinário, e mais fácil - o prodigioso. Junto a seu cadáver cresceram os prodígios, sobre seu sepulcro se perpetuaram e na sucessão dos séculos, ante uma continuada experiência, os povos de todas as nações têm aclamado Santo Antônio “o santo dos milagres”, o “mais celebrado taumaturgo”.

Se o testemunho de Deus em favor de seu servo tem sido evidente, mais veemente e terno se nos apresenta em outra obra de seu poder. O corpo de Santo Antônio, pagando o universal tributo de humilhação imposto por Nosso Senhor, reduziu-se a pó, mas Deus permitiu que a língua, que tão eloquente, fervorosa e amante lhe falara de suas bondades, não sofresse os efeitos da corrupção; fez que se conservasse fresca e rosada como a de uma pessoa viva.

Passados trinta e dois anos de sua morte, a 8 de abril de 1263, São Boaventura viu, e com ele todos os magistrados e habitantes da cidade, que só a língua do santo se conservava em seu estado natural. Foi nesta ocasião que pronunciou as célebres palavras: “Ó língua bendita, que sempre louvaste a Deus e fizeste que outros o louvassem também, agora se vê quantos foram teus méritos diante do Senhor!” [Cf. Antífona de São Boaventura] Este prodígio continua em nossos dias.


SANTO ANTÔNIO E O RESPONSO

Sendo tão universal o agradecimento a Santo Antônio, não parecerá excessivo que se tenham dedicado a santo tão poderoso vários exercícios e obséquios.

O mais importante é o exercício das treze terças-feiras, que, como disse em capítulo anterior, foi abençoado e indulgenciado pela Igreja, e que, sem dúvida, pela duração e pelas boas obras que se praticam durante as mesmas, obteve a predileção do santo. Não falamos das novenas e tríduos que se praticam para todos os santos e que são também dedicados ao glorioso Santo Antônio. Há também “as visitas diárias” a Santo Antônio, durante um mês. Entretanto, dois são os obséquios próprios e exclusivos para honrar o santo: os exercidos em honra de sua língua e seu formosíssimo Responsório. Consiste o primeiro em recitar como jaculatórias as palavras que pronunciou São Boaventura, e que foram aceitas pela Igreja, com suas orações respectivas e outras invocações. O “Responsório” obteve carta de popularidade entre os fiéis e a Igreja o indulgenciou com cem dias de perdão. Condensa com tanta clareza as diversas manifestações da ternura e do poder do glorioso taumaturgo que o mesmo foi escolhido para demonstrar o vivo agradecimento dos favorecidos.

Os devotos antonianos devem repeti-lo muitas vezes, sabê-lo de cor e rezá-lo com frequência para merecer mais seguramente a proteção do santo.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Print Friendly and PDF