sábado, 9 de março de 2024

As Classes Gramaticais

 

Diz Carlos Nougué, em sua Suma Gramatical[1], que a linguagem reflete de algum modo em suas construções a própria estrutura da realidade, razão pela qual as classes de palavras expressam, também de algum modo, as dez categorias ou gêneros máximos do ente.

 

Para entender tudo isso, é preciso antes compreender o que são as classes gramaticais e depois o que são as dez categorias, para, por fim, compreender como as classes gramaticais expressam de algum modo as dez categorias.

 

1. As classes gramaticais:

 

As gramáticas correntes tendem a dividir as classes gramaticais em dez, dentro de uma classificação entre classes variáveis e invariáveis. Resumimos tudo no quadro abaixo:

 

 

 

 

 

Classes gramaticais

 


Variáveis

 

1. Substantivo;

2. Adjetivo;

3. Verbo;

4. Pronome;

5. Artigo;

6. Numeral;

 

Invariáveis

 

7. Advérbio;

8. Conjunção;

9. Interjeição;

10. Preposição.

 

Essa classificação, porém, não é das melhores, como o mostra Carlos Nougué ao longo de suas duas gramáticas. Com efeito, os pronomes, por exemplo, não podem dizer-se classe gramatical senão por certo ângulo ou aspecto, ou seja, por comporem paradigmas; mas reduzem-se a substantivos ou a adjetivos; também os numerais ou são adjetivos ou são substantivos; os artigos, por sua vez, reduzem-se a adjetivos determinativos; etc.

 

Por isso, a melhor classificação das classes gramaticais é a que segue:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Classes gramaticais

1. Substantivos  

 Concretos

Reduzem-se a substantivos ou a adjetivos os:        

 Abstratos

 

 

 

2. Adjetivos

Qualificativos

 

 

Determinativos

 

 

Possessivos

Pronomes;

 

Numerais;

 

Artigos.

Demonstrativos

Indefinidores ou indeterminadores

Numerais

3. Verbos

 

4. Advérbios


5. Conectivos

Absolutos

Preposições

Conjunções

Não absolutos

Pronomes relativos

6. Interjeições

 

 

Note-se que estão em negrito o que correntemente se chamam as dez classes gramaticais. Não obstante, classes gramaticais propriamente ditas são apenas seis: o substantivo, o adjetivo, o verbo, o advérbio, os conectivos e as interjeições. Os pronomes, os numerais e os artigos reduzem-se a substantivos ou a adjetivos, enquanto que as preposições e as conjunções são, em verdade, conectivos. Por que o são, trataremos em outros opúsculos.

 

2. As categorias do ente

 

O ente é o que é, o que tem ser. Segundo Santo Tomás, o ente é aquilo que se nos dá por primeiro aos sentidos, o que é outro modo de dizer, ainda com Santo Tomás, que tudo o que o homem conhece, “só o conhece sob a formalidade radical de existente, de ente”[2]. De modo ainda mais simples, e para que todos entendam, diz Daniel Scherer que “negativamente, dizer que algo é um ente é simplesmente dizer que ele não é um nada. Positivamente, porém, dizer que algo é um ente é dizer que ele é ou tem ser”[3].

 

Pois bem, dizer que o ente é o que é implica que o mesmo ente se predique de tudo, razão por que isto que se nos dá por primeiro aos sentidos - o ente - se por um lado é evidentíssimo, por outro lado é confusíssimo. Com efeito, esta cadeira que se nos dá aos sentidos é ente, como é ente a mesa, a casa, a árvore, o cachorro, a abelha, o homem, etc. Não é difícil notar que o ente está disperso numa infinidade de modos diversos de ser, e que ele como que se oculta de nós.

 

O gênio de Aristóteles percebeu isso, mas não parou por aí: o Filósofo descobriu que, conquanto o ente esteja confuso em meio aos diversos modos de ser, é possível no entanto classificar os diversos modos de ser do ente em dez gêneros generalíssimos, ou seja, Aristóteles descobriu que o ente se divide em dez predicamentos: são os dez modos de dizer ente.

 

A primeira distinção entre estes dez modos é evidente: há coisas que se dizem entes porque são algo: a substântica; e há coisas que se dizem entes porque são algo em outra coisa: os acidentes. Assim, as dez categorias são:

 

 

 

 

 

Dez Categorias

1. Substância;

 

 

 

 

Acidentes

2. Quantidade;   (o quanto)

3. Qualidade;     (o como)

4. Relação; (com que se relaciona)

5. Ubiquação/onde;    (onde está)

6. Quando;          (quando)

7. Situação/posição;  (como está)

8. Posse/habitus; (em que circunstância)

9. Ação;               (atividade)

10. Paixão;          (passividade)

     

Pois bem, em seu devido momento trataremos cada uma das dez categorias. O que importa aqui é que, em resumo, tudo quanto se nos apresenta aos sentidos pode classificar-se nestes dez predicamentos.

 

3. As classes gramaticais e as dez categorias

 

Como dissemos no início, citando a Carlos Nougué, a linguagem de algum modo reflete, em suas construções, a própria constituição da realidade. Com efeito, o objeto próprio da inteligência é aquilo que é (o ente).

 

Muito resumidamente, o intelecto abstrai as espécies inteligíveis do ente de modo a formar uma concepção mental, que, por sua vez, é significada pela fala ou pela escrita. Assim, a língua “significa materialmente as concepções que o intelecto forma como semelhanças da realidade; e, assim como o intelecto, ao conceber a realidade, naturalmente se faz semelhante a ela - na medida do possível, é claro - assim também a Linguagem busca artificialmente assemelhar-se à estrutura daquelas concepções - ainda na medida do possível”[4].

 

Daí que as classes gramaticais de alguma maneira expressem as dez categorias  ou gêneros máximos do ente. Para entendê-lo, damos a palavra in extenso a Carlos Nougué[5], a modo de conclusão:

 

“Com efeito, olhe-se para qualquer homem, que por subsistir em si é uma substância, assim como o é qualquer laranjeira ou qualquer cisne, e constatar-se-á, por exemplo, que tem 1,80 metro de altura e 85 quilos de peso (quantidade); que é branco ou negro (qualidade); que é pai ou filho de alguém (relação); que ocupa um lugar (onde); que se encontra em determinado instante (quando); que está de pé ou sentado (situação ou posição); que vai armado ou calçado (posse ou habere); que caminha ou toca um violino (ação); e que é molhado pela chuva ou queimado pelo sol (paixão).

 

Não é difícil concluir que a classe do SUBSTANTIVO exprime as substâncias ou os acidentes tratados como substâncias; que o ADJETIVO corresponde a qualidade - e a relação, a situação, a posse, etc., tomadas ao modo da qualidade; que o VERBO expressa, propriamente, a ação e a paixão, mas também a posse entendida como ação de possuir, etc.; e que o ADVÉRBIO se ocupa do quando e do onde (além, naturalmente, de aplicar-se à indicação do modo, etc.).”

 

Observação. A língua tanto mais reflete a realidade quanto mais cultivada for, ou seja, quanto mais se valerem dela e a aprimorarem verdadeiros mestres. E quanto mais cultivada for a língua mais progredirá, seja fechando novos paradigmas seja criando e incorporando a seu léxico palavras que expressem novas concepções da realidade. Para aprofundamento deste ponto, cf. Suma Gramatical, Prólogo e p. 36.   

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Willian Mitre

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[1] 3.ª ed., p. 126.

[2] Carlos Nougué. No Fragor da Batalha, p. 347.

[3] Daniel C. Scherer. A Raiz Antitomista da Modernidade Filosófica, p. 23.

[4] Carlos Nougué. Suma Gramatical, 3.ª ed., p. 63.

[5] Carlos Nougué. A Arte de Escrever Bem na Língua Portuguesa, p. 63.


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