Retirado do livro: Perguntas e Respostas Concisas e Familiares às Objeções Mais Vulgares Contra a Religião, de Monsenhor de Ségur.
RESPOSTA. - Não, ninguém de lá voltou; e se vós mesmo lá entrardes, bem como os outros, não voltareis.
Se de lá se pudesse voltar, bastava só uma vez, eu vos diria: “Pois ide lá, e vereis se há ou não”. Mas por isso mesmo que se não pode fazer esta experiência, é grande insensatez expor-se qualquer pessoa a um mal tão sem remédio, como sem termo e sem medida.
Dizeis que não há inferno? Estais bem certo disso? Desafio-vos para o afirmar seriamente. Teríeis uma convicção que ninguém teve antes de vós, mesmo os mais profundos ímpios. A esta pergunta: Há inferno? Respondia Rousseau: “Eu não sei...” E Voltaire escrevia a um de seus amigos, que supunha ter achado a prova da não existência do inferno: “Sois muito feliz! Quanto a mim estou muito longe disso”. Mas eu vou opor ao vosso talvez não haja, pode ser que não haja, uma terrível afirmação.
Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, diz que há um inferno, e um inferno tão temeroso, que “o fogo nunca aí se extinguirá”. São estas as suas próprias palavras, as quais repete seguidamente três vezes[1].
Ora, qual devo eu acreditar de preferência: um homem que nunca estudou a Religião, que ataca aquilo que não entende, que não pode ter senão dúvidas, e não certeza acerca deste objeto: - OU AQUELE que disse: Eu sou A VERDADE; o céu e a terra passarão, porém a minha palavra não passará?
Acautelai-vos: é Jesus, o bom Jesus; Jesus tão misericordioso e tão benigno, que perdoa tudo aos pobres pecadores arrependidos; Jesus que acolhe sem uma palavra de exprobação tanto a culpada Madalena como a mulher adúltera, tanto o publicano Zacheo como o ladrão crucificado a seu lado; é Jesus que vos declara que há um inferno de fogo eterno; e que quinze vezes expressamente o repete em seu Evangelho!
Acaso tereis a pretensão de serdes mais entendido a respeito de misericórdia e bondade do que Jesus Cristo?
Atendei a que, nesta matéria, mais que em outra qualquer, é ordinariamente o coração do mau que fala, e não a sua razão. É a paixão criminosa que tem medo da justiça de Deus, e que brada, para aturdir a consciência: “Não há justiça de Deus, não há inferno!”
Mas que importam à realidade estes brados e estas paixões? O cego, que nega a luz, evita acaso que a luz alumie? Ou o ímpio o negue, ou o reconheça, o certo é que existe um inferno, vingador do vício, e que este inferno é eterno.
Tal é o clamor de toda a humanidade! A certeza do inferno está de tal modo arreigada na consciência humana, que com efeito se depara este dogma entre todos os povos antigos e modernos, tanto entre os idólatras selvagens, como entre os cristãos civilizados. Acha-se de tal maneira ligado ao Cristianismo, que entre tantas heresias que atacaram os dogmas católicos, nenhuma delas ousou negá-lo. Só a veracidade do dogma do inferno ficou em pé, e intacta, no meio de tantas ruínas.
Os maiores filósofos, os mais remontados engenhos admitiram o inferno, e escusado é dizer, que, não só entre os cristãos, porém entre os mesmos pagãos: Virgílio, Ovídio, Horácio, Platão, Sócrates, enfim, até o ímpio Celso, esse Voltaire do terceiro século. Quem ousaria mostrar-se mais renitente do que eles?
Há coisa de uns vinte anos, pela quaresma, acabava o capelão da escola militar de S. Ciro de dar uma instrução aos estudantes da mesma escola acerca do inferno. Subia este, e ia já a entrar para o seu quarto, quando um capitão veterano, adido a esta escola como instrutor, e que subia a escada atrás dele, lhe disse em ar de zombaria: “Senhor capelão, podereis dizer-me se no inferno seremos assados ou cozidos?”
O capelão voltou-se, olhou-o um instante em silêncio, e respondeu-lhe com frieza: "Vê-lo-eis, capitão”. E fechou a porta.
O oficial foi-se embora, mas já sem vontade de rir, e de ali a tempo, tendo-se convertido a Deus, declarou que devia a sua conversão à surpresa desta simples resposta e ao pensamento do inferno.
Não zombeis pois do inferno, meu querido leitor; neste objeto não há motivo para rir.
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Em complemento, e aproveitando a data de hoje, Nossa Senhora, em Fátima, deu a conhecer aos pastorinhos o inferno. Segundo narra a irmã Lúcia:
Abriu de novo as mãos, como nos dois meses passados. O reflexo pareceu penetrar a terra e vimos como que um mar de fogo. Mergulhados nesse fogo, os demônios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras, ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no incêndio, levadas pelas chamas que delas mesmas saíam juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhantes ao cair das faúlhas nos grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero, que horrorizavam e faziam estremecer de pavor (devia ser ao deparar-me com esta vista que dei esse ai! que dizem ter-me ouvido). Os demônios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes como negros carvões em brasa. Esta vista foi um momento. E graças à nossa boa Mãe do Céu, que antes nos tinha prevenido com a promessa de nos levar para o Céu (na primeira aparição). Se assim não fosse, creio que teríamos morrido de susto e pavor.
Este é o destino dos condenados, e negar a existência do inferno é já um sinal de condenação.
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| Jacinta, Lúcia e Francisco, os pastorinhos de Fátima. Imagem real. |
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Cf. também: Sobre a Eternidade das Penas.
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[1] Nosso Senhor Jesus Cristo fala quinze vezes do fogo do inferno no seu Evangelho. Vede entre outros os sete ou oito últimos versículos do capítulo nono de S. Marcos, onde diz, que vale mais perder tudo e tudo sofrer, que ir para o inferno, para o fogo que se não extingue, onde o remorso não morre, e onde o fogo se não pode extinguir. “Porque, acrescenta ele, todo o homem que aí cair, será salgado pelo fogo”, quer dizer, será simultaneamente penetrado, devorado e conservado, como O sal conserva as carnes, penetrando-as perfeitamente.
Vede ainda, em S. Mateus, o fim do capítulo vinte e cinco: “Apartai-vos de mim, malditos, ide para o fogo eterno, que foi preparado para o demônio e para os outros maus anjos. E estes irão para o suplicio eterno, e os justos para a vida eterna”.
E em S. João, capítulo quinze: “Se algum me não for unido (pela graça) será lançado no fogo, e arderá”, etc., etc.


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