Tenho ouvido muitas vezes dizer entre os mundanos, ou mesmo entre os protestantes, que não existe “pecadinho” e “pecadão”, pois todos os pecados são iguais. Certa feita ouvi de um protestante que a diferença está na sentença, pois pecados haverão que serão condenados com mais força que outros, ainda que todos os pecados sejam iguais.
Ora, isso atenta ao bom senso, pois a sentença é proporcional ao crime cometido. E qualquer pessoa do povo sabe que é mais grave matar que contar uma mentira oficiosa, ou que é mais grave cometer um latrocínio que roubar um pacote de café num supermercado.
Mas se isso é tão óbvio, por que essas pessoas negam a existência de pecados graves e pecados veniais (nomenclatura correta)? Parece-me que aos mundanos é um modo de justificar sua vida pecaminosa, de tal modo que, se todos os pecados são iguais, o que tem de mais cometer o adultério, o assassínio, o roubo, as blasfêmias, etc., se contar uma mentirinha tem o mesmo peso? Embriagar-se é pecado, mas se cometer adultério é igualmente pecado, o que tem de mais praticar o segundo em seguida ao primeiro?
Aos protestantes, no entanto, parece-me que o problema é a sua eterna mania de protestar. A Igreja Católica diz haver pecados graves e pecados veniais. Isso é o bastante para eles dizerem que inexiste esta distinção. Pois bem, contra uns e contra outros são as palavras da Escritura, conforme se verá abaixo, dos textos mais claros aos menos claros.
I- Primeira Epístola de São João
Diz São João (I Jo 5, 16-17): O que sabe que seu irmão comete um pecado, que não é de morte, ore (por ele), e Deus lhe dará a vida — falo daqueles cujo pecado não conduz à morte. Há um pecado que conduz à morte; não digo que rogue alguém por ele (com tanta confiança de ser ouvido). Toda a iniquidade é pecado, e há pecado que não conduz à morte.
O texto é tão claro que dispensa comentários. Aliás, aqui vai um comentário: como é possível a alguém negar a gradação de gravidade dos pecados depois de ler tal passagem? Se o problema é a ignorância, ela acaba de cessar; mas se é por malícia que o faz, apenas rogarei por você, caro amigo, mas sem tanta confiança de ser ouvido, como nos indica São João, pois a malícia é um pecado que conduz à morte (eterna).
II- Evangelhos
a- Pilatos tem menor pecado
Atentem-se, caríssimos, ao que Nosso Senhor diz a Pilatos (Jo 19, 10-11):
Então Pilatos disse-lhe: «Não me falas? Não sabes que tenho poder para te soltar, e também para te crucificar?» Jesus respondeu: «Tu não terias poder algum sobre mim, se te não fosse dado do alto. Por isso, o que me entregou a ti, tem maior pecado.
Ora, Pilatos pecou por omissão ao não salvar o justo, mas seu pecado foi menor do que o dos judeus que, além de não reconhecerem o Messias, o mandaram matar.
b- O pecado contra o Espírito Santo é maior
Disse Nosso Senhor Jesus Cristo (Mt 12, 31-32): Por isso vos digo: Todo o pecado e blasfêmia será perdoado aos homens, porém a blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada. Todo o que disser alguma palavra contra o Filho do homem, lhe será perdoado; porém o que a disser contra o Espirito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro.
E em São Marcos (3, 28-29): Na verdade vos digo que serão perdoados aos filhos dos homens todos os pecados e as blasfêmias que proferirem; porém, o que blasfemar contra o Espírito Santo, jamais terá perdão; mas será réu de eterno pecado.
Vejam, caros amigos, é mais grave blasfemar contra o Espírito Santo que contra o Filho do Homem. Todos os pecados serão perdoados, exceto os proferidos contra o Espírito Santo. Isto é ou não é gradação de gravidade entre os pecados?
E são estes os pecados contra o Espírito Santo[1]:
1º- desesperar da salvação;
2º- presunção de se salvar sem merecimentos;
3º- combater a verdade conhecida;
4º- ter inveja das graças que Deus dá a outrem;
5º- obstinar-se no pecado;
6º- morrer na impenitência final.
Estes são particularmente pecados contra o Espírito Santo porque são cometidos por pura malícia.
c- Sermão da Montanha
Nosso Senhor Jesus Cristo nos indicou a gradação entre pecados no sermão da montanha, mas este texto não é tão evidente quanto os outros. Vejamos (Mt 5, 21-22):
Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás (Ex. 20,13.. .), e quem matar será submetido ao juízo do tribunal. Pois eu digo-vos que todo aquele que se irar contra o seu irmão, será submetido ao juízo do tribunal. E o que chamar «raca» a seu irmão será condenado pelo Sinédrio. E o que lhe chamar louco, será condenado ao fogo da geena.
Santo Agostinho diz o seguinte em comentário a esta passagem[2]:
Qual a diferença entre ser condenado em juízo, no Conselho [Sinédrio] e na geena? Este último item parece gravíssimo, o que sugere uma gradação de penas, que vão das mais leves às mais graves, até a pena última, que é o fogo da geena. Portanto, se é mais leve ser condenado em juízo do que ser condenado no Conselho, e se é mais leve ser condenado no Conselho do que no fogo da geena, necessariamente será mais leve irar-se com o irmão, do que chamar “raca” ao irmão; e será mais leve chamar-lhe “raca”, do que lhe chamar “louco”. A pena não seria progressiva se os pecados correspondentes também não fossem progressivos.
III- Conclusão
Creio ter ficado suficientemente claro que a Sagrada Escritura atesta a existência de pecados graves, que levam à morte eterna, e de pecados veniais, aqueles que, conquanto macule a vida do fiel, não são suficientes para condená-lo ao inferno.
Portanto, caros irmãos, há “pecadinho” e “pecadão”. Negá-lo seria anular as palavras de Cristo e dos Apóstolos.
Willian A. Mitre.
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[1] Cf. Catecismo Maior de São Pio X, nº 961 e 962.
[2] O Sermão da Montanha. Livro I, Cap. 9, nº 23.

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